Resposta direta: nenhuma frase isolada causa burnout. O risco está na repetição: comentários que desqualificam, ameaçam, comparam ou negam pausa e descanso, ditos com frequência, mantêm a pessoa em estresse crônico, que é o caminho do esgotamento. Quando esse padrão humilha e persegue alguém, pode configurar assédio moral.

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A entrevista à Exame

Em setembro de 2024, mês do Setembro Amarelo, a revista Exame publicou reportagem de Layane Serrano com 30 frases comuns no ambiente corporativo que podem contribuir para o burnout. A entrevistada foi a médica e auditora-fiscal do trabalho Luciana Veloso Baruki, fundadora do AssédioNet.

“Quando uma pessoa é constantemente exposta a esse tipo de comunicação, as consequências para a sua saúde mental podem ser graves, levando ao desenvolvimento do burnout e outras doenças mentais”, disse ela à revista. A lista completa está na reportagem da Exame.

Exemplos de frases, por tipo de pressão

Separamos oito das frases citadas na reportagem, agrupadas pelo tipo de pressão que exercem:

  • Desqualificação e comparação: “Eu esperava mais de alguém com a sua experiência.” e “Por que você não é mais como Fulano? Ele sempre entrega.”
  • Disponibilidade sem limite: “Todo mundo aqui faz hora extra, por que você não pode?” e “Para ter sucesso aqui, você precisa estar disponível 24/7.”
  • Ameaça e hierarquia: “Se você não conseguir entregar, encontraremos alguém que dê conta do recado.” e “Você deveria se sentir sortudo por ter um emprego.”
  • Discriminação: “Eu sei que você tem filhos, mas precisamos de alguém comprometido.” e “Eu sei que as mulheres são mais detalhistas, mas precisamos de mais rapidez.”

As duas últimas vão além da pressão: tratam alguém pior por ter filhos ou por ser mulher. Sexo e situação familiar estão entre os motivos de discriminação que a Lei 9.029/1995 proíbe no trabalho.

Por que frases repetidas adoecem

A Organização Mundial da Saúde descreve o burnout como resultado do estresse crônico no trabalho que não foi gerenciado com sucesso. Na CID-11, ele tem o código QD85 e é classificado como fenômeno ocupacional, com três marcas: exaustão, distanciamento mental do trabalho e sensação de ineficácia.

Frases como as da lista não esgotam ninguém num dia. O efeito vem da exposição contínua: a pessoa passa a trabalhar em alerta, com medo de errar, sem conseguir se desligar. Na entrevista, a médica observa que o assédio que antes aparecia em gritos e xingamentos hoje se manifesta mais em microagressões, microgerenciamento e comentários passivo-agressivos.

Cobrança legítima ou assédio?

Cobrança legítimaPode ser assédio
Fala do trabalho e do resultadoAtaca a pessoa, a capacidade ou a vida pessoal
Metas possíveis, com recursosMetas impossíveis por desenho, para expor quem não cumpre
Feedback em particular, com orientaçãoCrítica pública, com humilhação
Situação pontualPadrão repetido ao longo do tempo
Mesma régua para toda a equipeDirigida a uma pessoa ou a um grupo

A diferença entre as duas colunas está detalhada em assédio moral ou exigência profissional: onde está o limite.

O que fazer se essas frases fazem parte da sua rotina

  1. Não normalize: reconhecer que o problema existe é o primeiro passo, como a entrevistada destaca na reportagem.
  2. Registre: anote a frase, a data e quem estava presente. Guarde mensagens.
  3. Busque apoio: de colegas de confiança e, sempre que possível, de um profissional de saúde.
  4. Use os canais: canal de denúncia, RH, CIPA ou sindicato. Veja como denunciar assédio moral.
  5. Se os sintomas já atrapalham a vida, procure avaliação médica. O afastamento por saúde mental é um direito quando há incapacidade.

O que a empresa pode fazer

Treinar líderes para cobrar sem humilhar, rever metas que só se cumprem com hora extra permanente, respeitar o horário de descanso e manter um canal de denúncia que funcione. Desde 26/05/2026, a NR-1 exige que os riscos psicossociais, como a comunicação agressiva e a sobrecarga, entrem no gerenciamento de riscos da empresa. O checklist da NR-1 mostra o que a fiscalização observa.

Fontes oficiais

Como o AssédioNet pode ajudar

Para empresas: palestras e treinamentos sobre assédio, NR-1 e riscos psicossociais, com mais de 280 já realizados.

Para trabalhadores: consulta médica em saúde mental do trabalho.

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