Resumo rápido: Para se afastar do trabalho por saúde mental, o trabalhador precisa de atestado médico com CID e, após 15 dias, solicitar o benefício B31 ou B91 no INSS. O empregador paga os primeiros 15 dias; o INSS assume a partir do 16º dia.

Burnout, ansiedade, depressão e outros transtornos mentais são causas legítimas de afastamento do trabalho. Muitos trabalhadores, porém, têm dúvidas sobre como funciona o processo, quais documentos são necessários e quais são seus direitos. Este guia responde essas perguntas com clareza.

Quando o afastamento por saúde mental é indicado

O afastamento é indicado quando os sintomas psíquicos estão impedindo o trabalhador de exercer suas funções com segurança e qualidade. Não existe “sintoma grave demais ou leve demais” para justificar o afastamento: o critério é o impacto funcional, avaliado pelo médico.

Condições que frequentemente levam ao afastamento:

  • Burnout (CID-11: QD85)
  • Depressão (CID-10: F32, F33)
  • Transtornos de ansiedade (CID-10: F40, F41)
  • Transtorno de estresse pós-traumático, especialmente após assédio moral (CID-10: F43.1)
  • Síndrome do pânico (CID-10: F41.0)
  • Transtorno bipolar (CID-10: F31)

Se você reconhece esses sintomas, leia também: O que é Burnout: sintomas, fases e como se recuperar

Passo a passo do afastamento por saúde mental

Passo 1: Procurar um médico

O primeiro passo é sempre médico. Vá ao seu clínico geral, psiquiatra, médico do trabalho ou a uma UBS. Descreva seus sintomas com honestidade: quando começaram, como afetam seu sono, sua concentração, seu trabalho e sua vida social.

O médico irá avaliar se o quadro justifica afastamento e, se sim, emitirá um atestado médico com:

  • CID correspondente
  • Período de afastamento recomendado
  • Assinatura e carimbo com CRM

Passo 2: Entregar o atestado ao empregador

Entregue o atestado ao RH ou à empresa assim que possível. Guarde uma cópia assinada como recibo. A empresa é obrigada a aceitar o atestado médico e não pode demitir o trabalhador durante o período de afastamento (exceto por justa causa).

Atenção: o empregador tem direito de enviar o trabalhador ao médico da empresa para validação do atestado. Mesmo assim, o documento original tem validade.

Passo 3: Os primeiros 15 dias são pagos pela empresa

Nos primeiros 15 dias de afastamento, o salário é de responsabilidade do empregador. Não há necessidade de contato com o INSS nesse período.

Passo 4: A partir do 16º dia, requerer benefício no INSS

Se o afastamento ultrapassar 15 dias, o trabalhador precisa requerer o benefício por incapacidade temporária (antigo auxílio-doença) no INSS. Os benefícios disponíveis são:

BenefícioCódigoQuando se aplica
Auxílio por incapacidade temporáriaB31Doenças não relacionadas ao trabalho
Auxílio por incapacidade temporária acidentárioB91Doenças causadas ou agravadas pelo trabalho

Para doenças mentais causadas pelo ambiente de trabalho (como burnout, TEPT por assédio), o correto é o B91, que garante proteção adicional (FGTS, estabilidade de 12 meses após retorno, reabilitação profissional).

Como requerer:

  1. Acesse o portal Meu INSS (meu.inss.gov.br) ou ligue 135
  2. Selecione “Pedir benefício por incapacidade”
  3. Envie os documentos solicitados (atestado, exames, histórico médico)
  4. Aguarde a perícia médica do INSS

Passo 5: Perícia médica do INSS

O INSS marcará uma perícia com seu médico perito para avaliar a incapacidade. Para essa perícia:

  • Leve todos os documentos médicos: atestados, laudos, receitas, histórico de consultas
  • Descreva como os sintomas afetam seu dia a dia, não apenas o trabalho
  • Seja preciso: fale sobre sono, alimentação, capacidade de concentração, relacionamentos
  • Se puder, leve um acompanhante

Dica importante: se o benefício for negado, você tem direito a recurso administrativo no Conselho de Recursos do Seguro Social (CRSS). Nesse caso, um assistente técnico médico pode ser fundamental.

Direitos do trabalhador afastado por saúde mental

  • Salário garantido: empresa paga os 15 primeiros dias; INSS paga a partir do 16º
  • Estabilidade: o trabalhador não pode ser demitido sem justa causa durante o afastamento
  • FGTS: continua sendo depositado durante o afastamento (no caso do B91)
  • Plano de saúde: mantido durante o afastamento (regra geral)
  • Reabilitação profissional: no B91, o INSS tem obrigação de garantir programa de reabilitação

O que fazer quando retornar ao trabalho

O retorno após afastamento por saúde mental exige cuidados. Leia o guia completo: Retorno ao Trabalho Após Afastamento por Saúde Mental

O médico que acompanha o trabalhador pode emitir um relatório de retorno com recomendações ao RH (redução de jornada, mudança de função, afastamento de situações estressoras). A empresa deve, na medida do possível, acatar essas orientações.

Perguntas frequentes sobre afastamento por saúde mental

Posso ser demitido por causa do afastamento por saúde mental?

Não durante o afastamento. A demissão de trabalhador com doença ocupacional reconhecida é considerada discriminatória. Se o afastamento for por B91 (doença do trabalho), há estabilidade de 12 meses após o retorno.

O empregador vai saber meu diagnóstico?

O atestado entregue ao RH pode conter o CID. A empresa tem acesso ao código, mas não ao detalhamento clínico. Na perícia do INSS, o laudo é sigiloso entre médico e segurado.

Posso pedir afastamento por burnout?

Sim. O burnout (QD85 pela CID-11) pode ser base para afastamento, especialmente quando associado a diagnósticos como depressão (F32/F33) ou ansiedade (F40/F41). Consulte um psiquiatra ou médico do trabalho.

O que é o NTEP e como ele ajuda?

O Nexo Técnico Epidemiológico Previdenciário (NTEP) é um mecanismo que presume o nexo entre a doença e o trabalho com base em dados estatísticos. Ele facilita a concessão do B91 sem necessidade de provas adicionais para algumas condições.

Quanto tempo dura o afastamento por saúde mental?

Depende do quadro clínico. O médico do INSS avalia a capacidade laborativa a cada período. Não há prazo mínimo ou máximo fixo: a duração é determinada pela evolução clínica.

Este conteúdo é informativo e não substitui orientação jurídica ou médica individualizada. Cada caso tem especificidades que exigem avaliação profissional.

Revisado por: AssedioNet, Dra. Luciana Baruki, CRM-SP 249297. Julho/2026.